AUDIT: triagem do uso de álcool em 10 perguntas
O Alcohol Use Disorders Identification Test da OMS: domínios avaliados, zonas de risco (0-7, 8-15, 16-19, 20+) e condutas sugeridas para cada faixa.
O que é
O AUDIT (Alcohol Use Disorders Identification Test) é um instrumento de triagem do uso de álcool desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde a partir de um estudo multicêntrico em seis países, publicado por Saunders, Aasland, Babor, de la Fuente e Grant (1993). Seu objetivo era identificar precocemente o consumo de risco e o consumo nocivo, e não apenas a dependência já instalada, permitindo intervenções breves antes que o problema se agravasse.
Trata-se de um dos poucos instrumentos de rastreio de álcool construídos desde o início para funcionar em culturas diferentes. No Brasil, a versão em português foi validada em serviços de atenção primária e é recomendada pelo Ministério da Saúde e por diretrizes de saúde do trabalhador.
O que mede e como é composto
O AUDIT tem 10 perguntas sobre os últimos 12 meses, organizadas em três domínios:
- Consumo de risco (itens 1 a 3): frequência de uso, quantidade típica em um dia de consumo e frequência de episódios de uso pesado (seis ou mais doses em uma ocasião).
- Sintomas de dependência (itens 4 a 6): dificuldade de parar depois de começar, deixar de fazer o que era esperado por causa da bebida e necessidade de beber pela manhã para se recuperar.
- Consequências nocivas (itens 7 a 10): culpa ou remorso após beber, lapsos de memória, ferimentos causados a si ou a outros e preocupação expressa por familiares ou profissionais.
Os itens 1 a 8 são pontuados de 0 a 4 conforme a frequência. Os itens 9 e 10 admitem apenas três respostas, pontuadas em 0, 2 ou 4. O escore total varia de 0 a 40.
A noção de dose padrão é essencial para os itens de quantidade: no Brasil, considera-se uma dose o equivalente a uma lata de cerveja (350 ml), um copo de vinho (150 ml) ou uma dose de destilado (40 ml), cada uma com cerca de 14 gramas de álcool puro.
Aplicação
- População: adultos e adolescentes a partir de 16 anos, aproximadamente.
- Tempo: 2 a 4 minutos.
- Formato: autorrelato ou entrevista. A OMS publica versões para ambas as situações.
- Contexto: atenção primária, pronto-atendimento, saúde ocupacional, avaliação pré-cirúrgica, serviços de saúde mental.
A abordagem influencia muito a sinceridade das respostas. Apresentar o AUDIT como parte de uma avaliação geral de saúde, e não como uma suspeita, aumenta a acuidade. Perguntar sem julgamento e explicar o conceito de dose antes de começar são cuidados simples que fazem diferença.
Pontuação e interpretação
A OMS propõe quatro zonas de risco, cada uma associada a uma conduta:
- Zona I, 0 a 7 pontos: consumo de baixo risco ou abstinência. Conduta: educação em saúde sobre álcool.
- Zona II, 8 a 15 pontos: consumo de risco. Conduta: aconselhamento breve, com foco em redução do consumo e informação sobre riscos.
- Zona III, 16 a 19 pontos: consumo nocivo, com sinais de dano ou de dependência inicial. Conduta: aconselhamento breve, monitoramento continuado e intervenção breve estruturada.
- Zona IV, 20 a 40 pontos: provável dependência. Conduta: encaminhamento para avaliação diagnóstica e tratamento especializado.
O corte de 8 é o padrão para triagem positiva em homens. Para mulheres e para pessoas acima de 65 anos, vários estudos recomendam corte de 7, já que o mesmo consumo produz mais dano nesses grupos.
Alguns padrões merecem atenção independentemente do total: qualquer pontuação nos itens 4 a 6 sugere dependência em desenvolvimento, e pontuação 4 nos itens 9 ou 10 indica dano recente.
Limitações e cuidados
O AUDIT depende da memória e da sinceridade do respondente, e o consumo de álcool é um dos comportamentos mais subestimados em autorrelato. Um escore baixo em alguém com sinais clínicos de uso problemático não deve tranquilizar.
Outros cuidados:
- O período de 12 meses não captura mudanças recentes; alguém que parou há dois meses ainda pontua alto.
- A conversão de bebidas em doses padrão é fonte frequente de erro, especialmente com destilados e drinques.
- O AUDIT não avalia outras substâncias; para isso existem instrumentos complementares como o ASSIST.
- Em gestantes, qualquer consumo é de risco, e as zonas de interpretação não se aplicam da mesma forma.
No Okdocto
O AUDIT está disponível na biblioteca pública de modelos, na categoria Testes Clínicos, com as 10 perguntas, a pontuação diferenciada dos itens 9 e 10, o cálculo do escore total e a indicação da zona de risco correspondente, junto dos metadados do instrumento.
Ao instalar o modelo, campos como {{PACIENTE_NOME}}, {{PACIENTE_IDADE}} e {{DATA_ATUAL}} são preenchidos automaticamente com os dados do atendido. Cada aplicação fica registrada no prontuário eletrônico, e a zona de risco pode ser referenciada no plano terapêutico e nos encaminhamentos gerados no sistema.
Acesse o modelo em AUDIT na biblioteca de modelos ou explore os demais instrumentos na biblioteca de documentos.
Dez perguntas feitas sem julgamento abrem uma conversa que muitas pessoas nunca tiveram. O AUDIT não resolve o uso de álcool, mas coloca o tema na mesa no momento em que ainda há muito a fazer.
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