SRQ-20: rastreio de sofrimento mental comum na atenção primária
O Self-Reporting Questionnaire da OMS em 20 itens: origem, aplicação, ponto de corte brasileiro e cuidados na interpretação em serviços de saúde.
O que é
O SRQ-20 (Self-Reporting Questionnaire) é um instrumento de rastreio de transtornos mentais comuns desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde no final dos anos 1970, com coordenação de Harding e colaboradores (1980), como parte de um estudo colaborativo sobre saúde mental em países de baixa e média renda. A ideia era criar um questionário simples, que pudesse ser usado por profissionais da atenção primária sem formação especializada, em contextos culturais e socioeconômicos muito diferentes.
No Brasil, o SRQ-20 foi traduzido e validado por Mari e Williams (1986) em unidades básicas de saúde de São Paulo, e desde então é um dos instrumentos mais usados em estudos populacionais, em saúde do trabalhador e em serviços de atenção básica. Sua versão brasileira também é conhecida como Questionário de Autorrelato de Sintomas.
O que mede e como é composto
O SRQ-20 avalia a presença de sofrimento mental comum (transtornos mentais comuns), termo que reúne sintomas não psicóticos de ansiedade, depressão e queixas somáticas que frequentemente coexistem e que respondem por grande parte da demanda de saúde mental na atenção primária.
São 20 perguntas de resposta dicotômica (sim ou não) sobre os últimos 30 dias, cobrindo quatro grupos de sintomas:
- Humor depressivo e ansioso: tristeza, nervosismo, choro fácil, dificuldade de sentir prazer.
- Sintomas somáticos: dores de cabeça, má digestão, tremores, sono ruim, falta de apetite.
- Decréscimo de energia vital: cansaço, dificuldade de tomar decisões, lentidão para realizar tarefas.
- Pensamentos depressivos: sentir-se inútil, perder o interesse pelas coisas, ideias de acabar com a vida.
Cada resposta afirmativa vale 1 ponto, e o escore total varia de 0 a 20. Não há subescalas oficiais, embora análises fatoriais brasileiras apontem para os quatro agrupamentos acima.
Aplicação
- População: adultos; pode ser usado em adolescentes com cautela.
- Tempo: 5 a 10 minutos.
- Formato: originalmente autoaplicado, mas frequentemente aplicado por entrevista em populações com baixa escolaridade, sem prejuízo das propriedades do instrumento.
- Contexto: rastreio na atenção básica, saúde ocupacional, estudos epidemiológicos, triagem em serviços de saúde mental.
A aplicação por entrevista é uma das razões do sucesso do SRQ-20 em contextos brasileiros: agentes comunitários e enfermeiros podem aplicá-lo em visitas e acolhimentos, sem depender da leitura do respondente.
Pontuação e interpretação
O SRQ-20 não tem faixas de gravidade formais. Ele funciona por ponto de corte para rastreio positivo, e o corte varia conforme o país e a população estudada. No Brasil, os valores mais usados são:
- 7 ou mais respostas afirmativas: rastreio positivo para sofrimento mental comum, corte proposto por Mari e Williams (1986) para a população geral.
- 8 ou mais: corte alternativo usado em vários estudos, especialmente para aumentar a especificidade em populações com muitas queixas somáticas.
- Alguns estudos adotam cortes diferenciados por sexo (6 para homens e 8 para mulheres), mas essa prática não é consenso.
A pergunta sobre ideias de acabar com a vida merece o mesmo tratamento do item 9 do PHQ-9: uma resposta afirmativa exige avaliação de risco no mesmo encontro, independentemente do total.
Para além do ponto de corte, o número de respostas afirmativas serve como medida bruta de intensidade do sofrimento e pode ser comparado entre aplicações.
Limitações e cuidados
O SRQ-20 identifica sofrimento, não diagnostica transtornos específicos. Um rastreio positivo indica necessidade de avaliação, que pode resultar em diagnóstico de depressão, transtorno de ansiedade, somatização ou nenhum transtorno formal.
Pontos de atenção:
- Respostas dicotômicas perdem nuance: alguém que teve dor de cabeça uma vez no mês e alguém que a teve todos os dias respondem igual.
- Os itens somáticos elevam o escore em pessoas com doenças físicas.
- Como o corte varia entre estudos, é importante documentar qual foi adotado no serviço para manter consistência.
- O SRQ-20 não substitui instrumentos específicos como PHQ-9 e GAD-7 quando o objetivo é medir gravidade e resposta ao tratamento de um quadro já identificado.
No Okdocto
O SRQ-20 está disponível na biblioteca pública de modelos, na categoria Testes Clínicos, com as 20 perguntas, a resposta dicotômica, a contagem automática de respostas afirmativas e a indicação do ponto de corte configurado, além dos metadados do instrumento.
Ao instalar o modelo na sua instituição, campos como {{PACIENTE_NOME}} e {{DATA_ATUAL}} são preenchidos automaticamente. As aplicações ficam registradas no prontuário eletrônico e podem ser retomadas em acolhimentos futuros para comparar a evolução do sofrimento ao longo do tempo, o que é especialmente útil para equipes de atenção básica e saúde ocupacional.
Confira o modelo em SRQ-20 na biblioteca de modelos e conheça os demais instrumentos na biblioteca de documentos.
Um questionário de 20 perguntas simples, pensado para atravessar culturas, continua sendo uma das melhores portas de entrada para o cuidado em saúde mental. O passo seguinte, ouvir quem respondeu sim, é o que transforma rastreio em cuidado.
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